O que tem na Feira de Salgueiro
Autor:
Edigles Guedes
O
que tem acá na feira
Da
cidade de Salgueiro?
Mutuca
que não cutuca;
Uma
pimenta-de-cheiro,
Que
fede, numa catinga,
Mais
do que suor de restinga,
Mais
do que pai de chiqueiro;
Um
feijãozinho com fraldas;
Um
arroz com mamadeira;
Boi
que não muge em roçado;
Sol
que dança a noite inteira;
Jumenta
do caritó;
Peitoral
do mocotó;
Uma
morena faceira;
Toco
pra amarrar seu jegue;
Vil
carroça de melancia;
Caroço
de faca cega;
Vã
semente de arrogância;
Bruta
sorte de caipora;
Gruta
morte de adutora;
Cruel
carruagem da ganância;
Fogos
de tais malefícios;
Casca
de lobisomem;
Couro
de siá borboleta;
Mulher
quer virar homem;
Homem
quer virar mulher;
Faca
quer virar colher;
As
nuvens que se somem;
Marido
que é pai-gonçalo;
Esposa
falsa ao marido;
Quenga
de cansado rabo;
Chifrudo
passeia a cavalo;
Ursos
se ajuntam de tuia,
Todos
no banho de cuia;
Tem
muito pau de dar em doido;
Minhoca
com sua coleira;
Galinha
anda descalçada;
Um
couro de varejeira;
Galo
não cantava à toa,
Entoava
sua grata loa;
Feirante
dizendo asneira.
Tem
arreios desmesurados;
Tem
quilo de abacaxi,
Que
só procotó sem rabo,
Com
pele cor de xixi;
Tem
demasiado potó,
Com
rabo duro e cotó,
Com
riso fazendo xis.
Um
marchante, carrancudo,
De
músculo pela goela,
Disse
bastante trombudo:
—
Quando calo minha moela,
Abro
os braços injuriosos,
Fecho
os calibres anosos
E aperto
muita rodela.
Um
feirante, bigodudo,
Com
cara de burro brabo,
Dizendo
logo o seguinte:
—
Eu vivo comendo quiabo,
Mas
arrotando maxixe,
Nutrido
com papa-peixe.
É
Seu Pintado, o bom diabo.
Um repentista,
braçudo,
Mexeriqueiro
e enxerido,
Dizendo
as suas boas lorotas:
—
Aqui, vi certo marido
Dar
uma de mulherengo,
Metido
no bordelengo,
E
acabou de quengo doído.
Um
cego, com seu violão,
Trovejava
belo verso:
—
Toma cuidado, pessoal!
Pega
o ladrão controverso!
Que
rouba pão sem questão,
Que
rouba roupa e balão,
Isso
de verso e reverso.
Um
bodegueiro, bojudo,
Vociferou
sofrimento:
—
No denodado comércio
Só
sobrevive ao tormento,
Quem
tiver guelras nas tripas.
Tome
lá muitas chulipas,
Quem
não tiver seu talento!
Um
peixeiro bem marruá,
Com
cara de Seu Defunto,
Disse
ao cliente sua desdita:
—
Vendo do peixe o presunto,
Aceito
devolução
Da
mixaria e de cação.
Sou
homem de grande bestunto.
Um
lambisqueiro, troncudo,
Com
abdômen de tanquinho,
Disse
ao freguês, barrigudo:
—Quer
quanto no móio de coentro?
A
cebolinha vem junta,
Se
mal você me pergunta.
Boto
na sacola adentro.
Um
quitandeiro, galhudo,
Com
charuto tresvariado,
Alerta
ao consumidor:
—
Que conversa é essa de fiado?
Me
mire, mas me erre disso…
Fico
feio que só caniço!
Viro
menino malcriado!
Na
feira pode faltar:
Um
sovaco de aleijado;
Vespa-caçadora
viúva;
Jabuti
cata calado;
Tatu-canastra
passeia
De
sapato sem a meia;
Piolho
de cobra amassado;
Tatu-bola
de calção
Bate
uma pelada em campo;
Triste-vida
voa, voa e caça
Flores,
méis e pirilampo;
Cravo
vestindo gravata;
A
gema que não desata;
Berilo,
diadema e grampo;
Roseira
vestindo saia;
Caldo
de cana de mala,
Pronto
pra sair de fininho;
Lêndea
com roupa de gala;
Cobra
cuspe catarata;
Chocalho
soca barata,
Numa
caveira alcavala;
Ovo
de clara rasgada;
Teiú
de focinho amarrado;
Timbu
de sorriso amargo;
Biscoito
achocolatado;
Xícara
com olho zargo;
Chaleira
com quadril largo;
Multíplex
abiscoitado;
Verdureiro,
bravo e bruto,
Com
seu cafiroto aceso,
Disse
as sílabas, ligeiro:
—
Estou liso, louco e leso;
Porém
não levo chuveiro,
Não
levo de bagageiro.
Em
casa vivo defeso.
Não
passo pito em ninguém;
Não
carrego desaforo
Pra
dentro de minha casa;
Não
há nem vela, nem choro;
Sou
pinga fogo na brasa;
Sou
Cancão sem pastosa asa;
Detenho,
mas não demoro.
Um
jacaré já pintou
O
sete a quatro por lá.
Deitou-se
na cama suave,
Rolou
em lençóis acolá.
O
olho, aboticado e grave.
Da
casa perdeu sua chave,
E
deu com burros na pá!
Zé-povinho
escorraçou-o.
Um
pinguço, sorrateiro,
Queria
saborear seu couro.
Como
galinha em poleiro,
Num
fogaréu duradouro.
Queimam
jacaré, mui touro,
Dentro
dum bruto saleiro.
Só
não falta quem vai lá!
Tem
muito toutiço azedo;
Porco
defeca dinheiro;
Macaco,
que bicho tredo!
Faz
careta muito arteiro,
Fede
como cachaceiro,
Anda
que nem um bêbedo.
A
lontra lambe o sapato;
Foca,
fofa e fofoqueira,
Fala
pelos cotovelos.
Girafa
come sujeira
E
arrota grossos farelos.
Um
jegue, nu e sem os pelos,
Diz
aos seus botões, asneira.
Até
onça com treze chifres
Já
andou por aquela feira.
Certo
dia, o bicho engasgou.
Foi
sufoco na fogueira.
Um
gato, esperto, pulou.
Um
cachorro arreganhou
As
duas patas na traseira.
A
onça deu seu salto triplo.
Esperneou
que só menino,
Mas
não teve paparico.
Ela
fez do choro seu hino.
Afirmou:
— Já vou e não fico!
A
monstra pediu penico,
Foi
morar dentro dum sino.
Tem
cachorro com suas calças;
Tem
pinica-pau de saia;
A
lesma no cabaré;
Um
caracol na gandaia;
Blusa
com forró no pé;
Caranguejo
sem maré;
Vestido
sem alacraia.
Macaco
velho não bota
Sua
mão supimpa em cumbuca.
Para
pegar catolé,
Não
cai na dura arapuca.
Antes
dará pontapé,
Chupará
esse picolé,
Vestirá
troncha peruca.
Estou
falando da feira,
Dizendo
tudo que tem,
Inclusive
uma roseira.
Gasta
por ela vintém,
Lascado
numa lareira.
Eis
que você, caso queira,
Se
quiser compre também.
— FIM —
Salgueiro,
11/02/2016.
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